Geralmente, sob a perspectiva social, é chamado de ética o conjunto de ações realizadas, ainda que ninguém esteja vendo, porém no ambiente organizacional, o conceito de ética inevitavelmente passa pelos públicos de interesse ligados à empresa.

A ética empresarial é a responsável por determinar a moral e a conduta dentro das organizações, está relacionada aos valores morais e éticos dentro de uma companhia, que transcendem para o seu respectivo mercado de atuação, clientes e consumidores.

Os valores na ética empresarial são os mesmos que regem a conduta dos relacionamentos na vivência social e quando organizações se preocupam com esses valores em sua conduta, estão trilhando um caminho de sustentabilidade no mercado.

A pesquisa “Riscos de Conduta”, realizada pela Deloitte, traçou um panorama com base na participação de 125 empresas para investigar como recebem e tratam denúncias relacionadas aos riscos de conduta.

Destas empresas, 71% apresentam receita maior do que R$ 500 milhões e 72% dos participantes ocupam cargos executivos e de governança em suas organizações.

O estudou mostrou que 80% das organizações participantes, identificaram desvios de conduta nos últimos quatro anos de atuação, porém, entre essas empresas, 65% não sofreram autuação.

Esses dados alarmantes reforçam a necessidade do fortalecimento da criação de mecanismos que garantem a apuração dos desvios de conduta , assim como diretrizes sólidas de gestão, apontando para uma cultura de integridade e ética nas organizações.

Em palestra ministrada por Lélio Lauretti, fundador e instrutor do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), foi pontuado que “a ética está crescendo, favorecida pelo sistema de comunicação”.

Lauretti acredita que a ética não é a antítese da corrupção, mas sim, um conjunto de princípios universais, afirmativos e perenes:

“Aristóteles definiu ética como a felicidade dos homens. Na tradição judaico-cristã, de acordo com o conceito de Humberto Eco, a ética surge com o outro, na convivência e na compreensão das necessidades das pessoas”.

Governança como chave para a consolidação da ética e transparência no mercado corporativo

A cada ano, surgem novos escândalos de organizações que feriram princípios éticos e não agiram de forma transparente junto aos seus stakeholders (partes interessadas) e, talvez a principal razão para isso, esteja na preocupação focada na lucratividade e na expansão no mercado.

A mesma pesquisa anterior contou com a participação de Ricardo Lemos, membro da Comissão de Gerenciamento de Riscos Corporativos do Instituto IBGC, falando sobre a importância de que a preocupação com a responsabilidade corporativa seja parte da cultura organizacional:

“A ética, a conduta e o compliance aos poucos estão se fazendo presentes nas agendas dos líderes das mais diversas organizações. Para que seja efetivo, o comprometimento com a integridade nos negócios deve fazer parte do DNA da organização: quanto mais natural for o comportamento íntegro, menores serão os riscos corporativos e mais rentável e sustentável será o negócio ao longo do tempo”, acredita.

Dentre as empresas analisadas, 90% têm conselho de administração em sua estrutura de governança, e esse fator chama a atenção para a necessidade da prática de gestão de riscos de conduta como um instrumento fundamental para a preservação de valor e de proteção aos membros da alta gestão organizacional.

A estrutura de governança está baseada em pilares que abrangem quatro categorias: envolve as estruturas, normas e processos internos, a reponsabilidade corporativa e prestação de contas e a ética e equidade, princípios que devem estar presente na cultura das empresas e que estão muito além do cumprimento legal, pois é fundamental para orientar as decisões em um negócio, assim como seu posicionamento e estratégia no mercado.

Governança Corporativa e Compliance – cada vez mais organizações estão preocupadas com o seu posicionamento diante do mercado e sociedade

A ética na governança corporativa é recorrentemente alvo de debates, porque não basta dizer sobre quem é no mercado, é preciso ser.

O bem mais valioso a qualquer organização é a sua reputação, já que uma imagem fortalecida é capaz de gerar confiabilidade a clientes, parceiros e possíveis investidores.

A boa reputação de uma empresa no mercado está intimamente ligada à sua história, aos seus princípios, valores, ao que cada integrante fundador trouxe de características para construir a narrativa que os clientes “compram” muito antes do produto.

Cada vez mais as pessoas estão preocupadas com as histórias por trás das marcas que consomem. As organizações que vivenciam em sua cultura uma preocupação social, muito além da geração de lucro, são aquelas que estão sempre no topo dentre as maiores empresas globais e o que elas fazem de diferente das demais? Estão sempre atentas às suas práticas de governança e revisitando a sua história e propósitos.

Governança e Compliance – conceitos complementares

A ética e o compliance caminham lado a lado para uma governança corporativa sólida. Ambas geram valor ao negócio diante dos stakeholders.

A governança corporativa representa as ações que são desempenhadas na administração do negócio e que influenciam diretamente o relacionamento entre sócios, conselhos, diretoria, órgãos de fiscalização e demais públicos relacionados à organização.

Já o compliance é responsável por garantir o cumprimento das normas por parte da organização e de todos os seus envolvidos, em todas as instâncias: jurídica, ambiental, trabalhista, previdenciária, fiscal, contábil, operacional, entre outras.

A tradução livre do inglês para o termo compliance se refere à conformidade. O termo foi importado dos Estados Unidos e Europa e ganhou força no Brasil a partir da década de 1990 e muito dessa repercussão se deve à criação da Lei Anticorrupção brasileira.

Quando organizações adotam o compliance, estão fortalecendo sua ética empresarial, inclusive, sua cultura interna e rotinas de trabalho em que continuamente são realizadas auditorias para a identificação de falhas no cumprimento das normas, assim como os projetos em andamento são continuamente revisados e melhorados.

Embora a Governança e o Compliance caminhem juntos, possuem suas particularidades. Talvez a principal diferença entre as duas vertentes esteja na relação com os valores da organização. A responsabilidade do Compliance está em garantir a conformidade com as regras, já a Governança Corporativa tem o papel de fazer com que todas as esferas da organização estejam alinhadas em um mesmo propósito, assim como visa a estruturação de processos e da gestão.

O compliance está ligado à gestão de riscos e às regras e a organização deverá agir conforme as informações e transparência dos dados.

Já a governança tem o compromisso de melhorar e proteger a reputação da organização e isso é realizado por meio da aplicação ética que perpassa sua estrutura comunicando relevância junto às partes interessadas.

Empresas de todos os portes e segmentos devem se preocupar em ter em sua estrutura os dois conceitos, que irão proteger a sua imagem, por meio do respeito às leis e à ética.

Andar de acordo com a regulamentação fortalece organizações e gera maior confiabilidade e segurança em seus processos e relacionamentos

Entre as principais vantagens de andar em conformidade com a lei, estão:

  • Maior qualidade dos produtos e serviços (devido a conformidade com os requisitos legais e normas internacionais);
  • Padronização de documentos e processos;
  • Diminui drasticamente a incidência de prejuízos financeiros;
  • Fortalecimento da imagem e reputação;
  • Melhor relação com fornecedores e parceiros;
  • Boa reputação aos olhos dos investidores;

Entre tantas outras.

Muitas organizações não estão em conformidade com as normas e padrões estabelecidos e, em muitos casos, por falta de conhecimento, sendo o problema mais recorrente entre PMEs (pequenas e médias empresas).

Nestes casos, será necessária a identificação da não conformidade, que envolve análise crítica por parte da organização. Deverão ser analisados: processos, produção, relacionamento entre as áreas, gastos e todos os demais fatores ligados à sua atuação.

Após o processo de análise envolvendo esforços para a compreensão e identificação das causas do problema, será preciso utilizar ferramentas e repensar processos que possam “fechar as brechas” com a não conformidade.

Os conselheiros assumem um papel muito importante na definição das ambições e prioridades do negócio, que precisam estar inclusas no planejamento estratégico e no direcionamento da diretoria, sendo a principal dificuldade do conselho assegurar o cumprimento do plano.

Mais do que se esforçar para cumprir as regras, o caminho mais seguro para as organizações está em repensar a sua atuação no mercado para que possam ser transparentes de fato e não apenas se esforçar para cumprir regras, porque em algum momento o que não está fortalecido em sua cultura, pode se tornar uma brecha diante dos stakeholders.

 

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