As empresas brasileiras ainda estão no caminho da evolução quando se trata de procurar apoio para a reestruturação financeira, o que coloca em risco sua permanência no mercado.

Pesquisa realizada pelo Compra Agora, plataforma B2B com foco no varejo brasileiro, em parceria com o Instituto Locomotiva, aponta que 98% dos varejistas de PMEs afirmam ter ao menos uma dificuldade financeira.

Essas dificuldades mencionadas estão ligadas a decisões sobre investimento no negócio, dificuldades para separar contas pessoais das da empresa e de adquirir crédito para investimento na loja.

Dentre aqueles que apontam alguma dificuldade financeira, as principais mencionadas, são:

  • Despesas (18%);
  • Gestão Financeira (15);
  • Concorrência (10%);
  • Precificação (7%);
  • Expansão (6%);
  • Acesso a crédito (6%).

A gestão financeira é um dos mais importantes pilares que confere aos negócios salubridade econômica e equilíbrio para uma jornada perene no mercado, mas uma boa gestão passa por inúmeros fatores como governança corporativa estruturada, padrão ESG, atuação dos conselhos consultivo e de administração, entre outros.

Com mais de 35 anos no mercado corporativo e desde 2015 à frente da MORCONE Consultoria Empresarial atuando como consultor em empresas de diferentes segmentos e portes, como conselheiro consultivo e especialista em governança corporativa e em ESG, quero abordar sobre o que leva a uma gestão financeira sustentável.

Alcançando uma gestão financeira sustentável à luz da Governança Corporativa

Sem dúvidas, a gestão financeira saudável é um dos principais pilares que mantém uma empresa ativa e em contínua expansão no mercado. Porém vivenciamos a realidade de que, embora alguns conceitos pareçam óbvios teoricamente, na prática não é algo simples de ser alcançado.

Quando se trata da gestão de custos, por exemplo, é fundamental que se descubra:

  • Se o negócio é rentável e, para isso, é necessário ter a noção de que rentabilidade e lucratividade não são sinônimas;
  • Torna-se fundamental identificar os desperdícios e muitas empresas não direcionam esforços para essa ação que pode resultar em economia e eficiência nos processos;
  • É crucial que se compreenda como os custos fixos e variáveis impactam no caixa da empresa.

Na teoria, os empresários demonstram clareza de entendimento quanto aos temas, mas perdem-se na prática, seja pela falta das expertises necessárias para tomar as melhores decisões e fazer uma boa orquestração entre prioridades e o que é secundário; pela falta de uma ferramenta de gestão adequada para as necessidades da empresa; metodologia de gestão inadequada à realidade do negócio, entre outros fatores.

Sustentabilidade é um dos princípios da governança corporativa estruturada e dentre as suas atribuições, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, estão:

– Zelar pela viabilidade econômico-financeira das organizações, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e operações, e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu modelo de negócios, os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, natural, reputacional) no curto, médio e longo prazos.

Não há como atender a essa demanda sem compreender a relação que a empresa tem com os fatores social, econômico e ambiental (ESG), porém a realidade mostra que para muitas empresas, ainda não equipadas suficientemente sequer com uma governança corporativa em suas noções básicas, o ESG ainda é alvo de muitas dúvidas como:

Por que investir em ações que não geram receita diretamente ou contribuem parcialmente com a manutenção de ativos críticos?

E diante desse questionamento, considera-se a necessidade de demonstrar em quais pontos cada linha de custo contribui com o principal objetivo de que a empresa vivencie a sustentabilidade no mercado.

Antes de pensar em como lucrar mais, em como viabilizar uma gestão financeira eficiente, empresários são convidados a pensar: a que custo?

Vive-se hoje o impasse da compreensão do ESG como uma avaliação individual das organizações quanto às principais tendências ambientais, sociais e econômicas, sobre expectativas internas e externas, principais demandas dos stakeholders, etc., junto à complexidade devido a uma mentalidade imediatista que ainda perdura entre muitos empresários de que é preciso “apagar incêndios” e dedicar a maior parte de sua energia com ações de curto prazo.

Temos visto recorrentemente histórias de grandes empresas fadadas a desaparecerem no mercado, com o exemplo mais recente do fechamento de 43 unidades da Starbucks no Brasil, resultado da crise na SouthRock Capital, grupo que controla a rede no país.

O grupo solicitou recuperação judicial alegando dívidas de R$1,8 bilhão e, segundo a companhia, a crise econômica é decorrente da pandemia, inflação e permanência de taxas de juros elevadas, mas na prática sabemos que não é este o motivo.

As causas são mais profundas e o problema foi o de priorizar o faturamento/escala e deixar em segundo plano a geração de caixa e lucro, pois se havia problemas de geração de caixa/liquidez, era recomendado realizar ajustes como diminuição no número de lojas, ajustes nas estruturas operacionais, priorizar produtos com maiores margens de lucro, etc.

Casos como este mostram o quanto vivenciar a gestão financeira sustentável é essencial, pensar em longo prazo, rever motivações por trás de cada decisão e algo importante precisa ser mencionado: a necessidade de procurar a ajuda de especialistas renomados e de um conselho de administração autônomo que possa auxiliar a organização sobre os próximos passos, não apenas para superar uma crise recente, mas para que possa continuar saudável no mercado.

Essa é uma necessidade entre as PMEs, grandes empresas e destaco aqui as empresas familiares e suas características próprias como modelo de gestão de negócio em que a preocupação com a sucessão empresarial, por exemplo, é um dos principais pontos a serem avaliados para que essas organizações consigam atravessar gerações.

Conselhos como fator direcionador às empresas para a gestão financeira eficiente

Os CFOs que se mostram eficazes são aqueles que sabem lidar melhor com o planejamento de cenários para a compreensão da realidade atual e para criar estratégias assertivas em meio a um ambiente de incertezas.

Essa capacidade não está relacionada a “prever o futuro”, o que seria impossível, mas sim, de prever ou conseguir visualizar futuros alternativos e dentro deles pensar nas melhores decisões a serem tomadas.

O papel dos conselhos quando se trata de resultados, performance e metas econômico-financeiras também é o de levantar importantes questionamentos para o direcionamento das organizações, como:

  • Identificação acerca dos principais fatores macroeconômicos que têm influenciado o resultado e o desempenho da empresa;
  • Como as variações nos cenários macroeconômicos impactam as projeções da receita, despesa, resultado e margem das empresas?;
  • Quais oportunidades emergem diante das projeções macroeconômicas?;

Entre muitos outros.

ESG na gestão financeira é uma realidade que coloca entre os conselhos o debate sobre temas como capitalismo consciente e finanças sustentáveis no topo das agendas de discussão.

É necessária uma gestão financeira que permita a estabilidade e crescimento de longo prazo da empresa e, para isso, os conselhos como órgão guardião da estratégia assumem o papel de trazer a organização ao foco de seus propósitos e ao controle na gestão de seus recursos de forma eficiente.

Além disso, representa o ponto de partida para que essas empresas cumpram com o seu papel dentro de cada um dos pilares presentes no ESG também em seu exercício financeiro.

Estudo realizado pela McKinsey mostrou que as empresas mais bem-sucedidas que integram prioridades ambientais, sociais e de governança corporativa em suas estratégias de crescimento superam os seus concorrentes, demonstram o quanto o ESG potencializa o valor de uma organização no mercado, impactando em sua consolidação, reputação e crescimento.

Para uma gestão financeira sustentável, tenha um conselho diverso, uma governança estruturada, seja ESG em sua cultura, mas também seja “inquieto” compreendendo que “mares calmos não fazem bons marinheiros” e que para assumir a liderança no mercado é fundamental enfrentar desafios e se render à constante renovação do conhecimento.

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