Entre os principais desafios aos conselhos na atualidade, sem dúvidas, está a diversidade e a inclusão e essa foi uma das reflexões da pesquisa Global Board Diversity Tracker 2022-2023, realizada pela EgonZehnder.

O estudo mostrou que, embora os conselhos estejam mais diversificados, não necessariamente sejam mais inclusivos e entre os principais resultados, destacam-se:

  • Em âmbito global, os conselhos melhoraram a diversidade de gênero, sendo que, no geral, as mulheres ocupam 27% dos cargos nos conselhos, aumento de 3,7% em comparação a 2020, marcando a melhoria mais rápida na porcentagem de mulheres nos conselhos em 10 anos;
  • O número de grandes empresas com pelo menos uma mulher no conselho aumentou de 89% em 2020 para 93%. Nos 44 países avaliados, apenas cinco viram declínios quanto ao número de mulheres integrando os conselhos nos últimos dois anos: Argentina, Bélgica, Israel, Malásia e Suécia, embora os três últimos tenham caído menos de 1%;
  • Algum progresso na diversidade racial e étnica, mesmo que estes dados ainda estejam surgindo em muitas regiões ou não sejam relatados;

Entre outros.

Com ampla experiência no mercado corporativo, atuando como consultor na MORCONE Consultoria Empresarial e como conselheiro consultivo, hoje quero abordar sobre a multidiversidade nos conselhos de administração (CAs), o que representa e quais desafios impõe.

Multidiversidade nos conselhos – fatores que refletem em muitos desafios

A multidiversidade pode ser compreendida como “a diversidade de muitas maneiras ou ao longo de muitos eixos”, e quando se traz este conceito ou compreensão sobre os conselhos, o que se quer é demonstrar a multiplicidade de questões da atualidade, que impõe aos conselhos a capacidade ágil de atualizar conhecimentos e de responder às necessidades do mundo.

mudança de papel nos conselhos tem profunda ligação com a crescente transformação no ambiente corporativo. Dentre essas mudanças, destaca-se o da estrutura societária brasileira, em que usualmente o controlador era o presidente da companhia ou dominava o conselho, o que gerava uma participação mais passiva por parte do órgão.

Para o sócio sênior da Korn Ferry, Jorge Maluf, a transformação surge com a abertura de capital das companhias, assim como a chegada de grandes investidores institucionais, do private equity.

E claro que não podemos falar das mudanças, sem mencionar os aspectos evidenciados pela pandemia global, que fugiram do controle das empresas ao redor do mundo, tais como:

  • Cadeias de suprimentos impactadas;
  • Eixos econômicos e de negócios modificados;
  • Aceleração digital.

pesquisa global, Diversidade nos Conselhos de Administração, conduzida pela KPMG, foi desenvolvida tendo como base os desafios atuais e contínuos relacionados à demanda por mais diversidade nos conselhos de administração nas empresas.

A diversidade que segundo o estudo, será fundamental para desafiar o status quo; compreender as megatendências; para aprimorar o planejamento estratégico, o gerenciamento de riscos e a gestão de talentos e, essa dinâmica em meio a um contexto de grandes expectativas por parte dos acionistas e demais stakeholders.

Dentre os principais resultados desta pesquisa, destacam-se:

  • 69% dos entrevistados fariam mudanças na composição dos conselhos em que atuam;
  • Entre os conselheiros, 72% concordam que a ausência de diferentes pontos de vista dificulta a identificação de pontos cegos ligados a questões estratégicas importantes;
  • 58% dos conselheiros acreditam que a diversidade do conselho tem papel relevante ou muito relevante para a avaliação da atuação social corporativa da empresa;
  • Quanto à inclusão, a liderança se mostra eficaz em extrair pontos de vista, ideias e preocupações de todos os membros do conselho para 46% dos entrevistados;
  • Sobre o planejamento estratégico, 62% dos entrevistados mencionaram necessidades estratégicas e competitivas como fatores de maior influência para a mudança na composição dos CAs nos próximos anos;

Entre outros.

Outro ponto muito relevante a ser refletido quando à multidiversidade nos conselhos são os vieses, pois quando se pensa, por exemplo, em que ainda temos um número baixo de mulheres nos conselhos de administração, por outro lado, considerando um prazo de cinco anos, o percentual de mulheres triplicou.

Isso nos leva a considerar os fatores e dados globais, porém, sem nos deixar levar por uma “onda” de otimismo que paralise nossos esforços.

Estamos melhorando e isso é uma verdade, mas não podemos compreender cada pequena evolução como algo grandioso, ainda temos um conselho majoritariamente composto por homens brancos, ainda estamos caminhando para um conselho plural em que existe uma grande demanda por diversidade geracional, que evoque trocas de experiência significativas, entre outras reflexões.

A multidiversidade nos conselhos engloba a necessidade de repensar a diversidade e inclusão sob infindáveis perspectivas, como a diversidade religiosa e étnica.

Multidiversidade no ambiente dos conselhos e corporativo é uma realidade que nos mostra o quanto precisamos evoluir, sem que nos sintamos conformados diante de pequenos avanços. Precisamos de uma diversidade que promova a inclusão, em que cada pessoa possa expressar sua voz, visão de mundo e talentos.

Você já concebeu a diversidade em sua própria atuação enquanto conselheiro?

As organizações desejam respostas, seja como podem performar melhor, sobre quais impactos são previstos diante de transformações socioeconômicas ou de decisões que precisam ser tomadas.

O mercado corporativo tem crescentes expectativas quanto aos conselhos, mas quais as expectativas do conselho sobre sua atuação enquanto órgão dotado de autonomia para direcionar o presente e o futuro das empresas?

A diversidade precisa começar pela mentalidade do conselheiro, em sua capacidade de se reinventar, em sua busca por contínuo aprendizado, em sua insatisfação com o lugar de conforto que nada lhe acrescenta ou induz a novos desafios.

A diversidade precisa ser concebida inicialmente na cultura dos conselhos, fazer parte da busca interna por parte dos profissionais. Tecnicamente é fundamental estar apto a continuamente aprender, mas é importante ter a abertura à troca, ao compartilhamento de experiências, ter a ousadia de muitas vezes refutar as próprias crenças que não se encaixam mais à realidade do mundo ou diante de um projeto de expansão.

Estamos discutindo o avanço da Inteligência Artificial (IA), transformação digital, estamos continuamente falando sobre governança e sobre ser ESG, mas o mundo necessita de profissionais “diversificados” em si mesmos, que preferem não se intitular, mas que continuamente se questionam sobre seu papel, sobre o que o mercado espera deles, mas, antes de tudo, são profissionais que esperam muito mais de si mesmos.

A diversidade e inclusão começam na cultura dos conselhos, mais precisamente na cultura e mentalidade dos profissionais. O quão aberto você é ao novo, o quão apto está a mudar rapidamente, assim como o quanto está disposto a emitir sua voz, ainda que não seja aquilo que se espera ouvir?

Os desafios estão aí e nenhum deles é imprevisível, mas quem você é hoje como profissional e o quanto se responsabiliza diante da realidade do conselho é a missão mais importante para hoje.

 

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